José Castilho* para o PublishNews
O ano eleitoral de 2026 devolve ao setor do livro brasileiro uma responsabilidade que não pode mais ser adiada: ocupar o centro do debate público. Em um país onde a palavra escrita ainda disputa espaço com desigualdades estruturais, erosão da confiança nas instituições e expansão da desinformação, discutir políticas públicas de leitura durante as campanhas eleitorais é afirmar que o destino do livro está indissociavelmente ligado ao destino da democracia. A defesa do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e de seus quatro eixos — acesso, mediação, valorização da leitura e fortalecimento da economia do livro — não é apenas uma reivindicação corporativa, mas um gesto de lucidez cívica.
O setor editorial e livreiro conhece, como poucos, a fragilidade e a força de um ecossistema que depende de continuidade institucional. Por isso lutamos pela Lei da Política Nacional de Leitura e Escrita (13.696/2018), que criou formalmente uma Política de Estado, supra-governamental. Cada livraria que fecha, cada biblioteca que perde orçamento, cada programa interrompido atinge não apenas a cadeia produtiva, mas a própria respiração cultural do país. A experiência acumulada em décadas de atuação profissional mostra que a política do livro não nasce de improvisos. Ela requer planejamento de Estado, articulação federativa, metas claras e convicção de que formar leitores é tão estratégico quanto formar cientistas, engenheiros ou professores.
Há, no entanto, elementos que tornam 2026 um ponto de inflexão. O avanço tecnológico, que amplia acesso mas intensifica desigualdades; a desinformação acelerada, que transforma opinião em ruído mentiroso; e a crescente disputa pelo imaginário público exigem uma sociedade capaz de interpretar, contextualizar e resistir. A leitura profunda e mediada é o antídoto civilizatório. Nas colunas do jornal Rascunho e nos argumentos desenvolvidos em meu livro O poder das palavras e outros poderes (Solisluna), indico que a autonomia intelectual não se decreta: constrói-se a partir de práticas de leitura de qualidade que habilitam o cidadão a navegar no excesso informacional sem perder o senso crítico.
O PNLL expressa essa visão ao compreender que a democracia depende de instituições estáveis: bibliotecas atuantes, políticas estruturadas de formação mediada, presença do livro em todos os territórios e uma indústria editorial capaz de sustentar a diversidade de vozes que define uma cultura viva. Esses princípios, contudo, só se mantêm protegidos por escolhas políticas. Governadores, deputados estaduais, senadores, deputados federais e o presidente da República precisam ser chamados a assumir compromissos explícitos com o fortalecimento desse sistema. É preciso exigir que programas estaduais de livro e leitura dialoguem com o plano nacional; que os fundos culturais incluam o livro como prioridade; que as redes de bibliotecas deixem de ser promessa; que a economia do livro — do autor ao livreiro — seja tratada como um segmento estratégico de desenvolvimento.
O setor sabe que o produto com que trabalha carrega uma singularidade: cada livro, revista ou site de conteúdo não é apenas mercadoria, mas vetor de imaginação democrática. Essa condição — tão frágil e tão poderosa — exige vigilância. Democracias declinam quando a palavra se empobrece, quando o pensamento se apressa, quando a cidadania perde o hábito de ler e interpretar. E democracias se fortalecem quando a sociedade civil reconhece esse risco e se mobiliza para enfrentá‑lo. Não basta esperar que governos sucessivos cuidem do livro: é preciso que escritores, editores, livreiros, mediadores, professores e bibliotecários sejam agentes ativos na defesa do PNLL, na cobrança pública e na produção de argumentos que tornem evidente o óbvio esquecido — a leitura é infraestrutura da democracia.
As eleições não são apenas disputas de projetos de poder; são disputas de projetos de país. Ou o Brasil decide, com clareza, que quer ser uma nação de leitores e leitoras, ou seguirá prisioneiro de improvisos. Cabe ao setor do livro transformar 2026 em um marco de afirmação política: apresentar aos candidatos uma pauta estruturada, exigir continuidade, fortalecer alianças federativas e fazer do PNLL — e de seus quatro eixos — uma prioridade inegociável. Se a democracia depende de leitores e leitoras conscientes, então defender a leitura de qualidade é defender o futuro do Brasil.

*José Castilho é editor, gestor público e escritor. Doutor em Filosofia (USP), docente na FCL-Unesp e consultor, já dirigiu a Editora Unesp e a Biblioteca Pública Mário de Andrade (São Paulo). É membro titular do Conselho Diretivo do PNLL 2026-2036.
**Artigo veiculada na 3ª edição impressa da Revista PublishNews, lançada em julho de 2026, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (clique aqui para saber como acessar).

